Um histórico do nosso Ir. Henri Vergès e Companheiros Mártires.
Beato Henri Vergés, Religioso Missionário na Argélia e Mártir
Acostumamo-nos a ver, junto aos santos, as
insígnias do seu martírio ou algo da sua vida: um livro, uma espada, pobres,
etc.. Mas o Ir. Henri veste um sorriso bem aberto, endossa um avental, avança
tendo na mão uma romã e, à sua frente-lado, veem-se quatro jarros. Combina com
que o Papa Francisco diria (aderindo a ele de imediato as ordens e institutos
religiosos, entre eles os Maristas) da “Igreja em saída”, “Igreja do avental”
ou “Igreja Mariana”. Como os outros mártires da Argélia, o Ir. Henri era um
homem comum e corrente que não escolheu ser mártir nem herói, mas,
simplesmente, cristão. Com ele, podemos descobrir a dimensão espiritual na vida
quotidiana. Permaneceu na Argélia por 25 anos, a serviço dos jovens.
O Beato Henri Vergès nasceu em
15 de julho de 1930, em Matemale, na França, na região dos Pireneus Orientais,
aldeia do Capcir, na encosta de Aude, a 1500 metros de altitude. Era o
primogênito dos seis filhos da família de José Vergès e de Matilde Bournet,
modestos camponeses. O pai foi eleito prefeito do povoado. A mãe, totalmente
votada ao lar, sabia dar atenção aos vizinhos pobres. Dessas raízes humanas ele
colheu o sentido do trabalho, da simplicidade, da retidão, da resistência moral
e da partilha.
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Henri Vergès ladeado por seu pai, José, e por sua mãe, Matilde. |
Aos 12 anos, deixou os pais para
iniciar o aprendizado da vida marista, primeiro em Espira de l’Agly, perto de
Perpignan, depois em Saint-Paul-Trois-Châteaux, na região provençal Drôme. Fez
a primeira profissão religiosa em 1946, seguida de um ano preparatório ao exame
do diploma elementar, em Notre-Dame de l’Hermitage, perto de Saint-Chamond,
Loire, na casa construída por São Marcelino Champagnat, fundador dos Irmãos.
Henrique começou o apostolado de Irmão professor em outubro de 1947, em
Saint-Geniez-d’Olt, no Aveyron. A saúde não resistiu a um trabalho intenso e a
uma alimentação demasiado frugal. Ele festejou os 20 anos em Osseja, sanatório
perto da sua terra natal. Foi um tempo de aprofundamento de sua vida religiosa.
Em 26 de agosto, Henri emitiu os votos perpétuos como Pequeno Irmão de
Maria. Começou uma nova etapa de educador e professor em diversas escolas do
Ardèche, em Cheylard e Aubenas. De 1958 a 1966, foi vice-mestre dos noviços, em
Notre-Dame de Lacabane, em Corrèze. Com tenacidade de campônio, continuou a
formação até licenciar-se em Filosofia.
Após o Capítulo Geral de 1967-68, do qual participou como delegado de
sua província de origem, o superior lhe pediu que fosse à Argélia. Henri
aceitou de bom grado: há muito tempo que desejava ir às missões. Empenhou-se
resolutamente em estudar o árabe durante as férias de verão em família e
desembarcou em Argel, em 06 de agosto de 1969, festa da Transfiguração.
A sua presença na Argélia, durante 25 anos, conheceu três etapas
principais:
1969-1976: Escola São Boaventura, em Argel. Henri assume a direção
durante seis anos, até a nacionalização.
1976-1988: Em Sour-El-Ghoziane, sobretudo como professor de Matemática.
1988-1994: Argel, Rua Ben Cheneb, no quarteirão da Casbah, como
responsável pela biblioteca frequentada por mais de mil estudantes do Liceu. No
seu gabinete de trabalho, foi assassinado, em 8 de maio de 1994, pouco depois
do meio-dia, com a irmã Paul-Hélène, do Instituto das Irmãs da Assunção.
“O caríssimo Irmão Henri foi testemunha autêntica do amor de Cristo, do
seu despojamento em favor da Igreja e da fidelidade ao povo argelino” (palavras
do Cardeal Duval, nas exéquias, em Nossa Senhora da África, em 12 de maio de
1994, festa da Ascensão do Senhor).
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Os amigos e irmãos de missão, a Beata Paul-Hélène e |
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Os dezenove Beatos Mártires da Argélia. |
Alguns textos de Henri Vergès
A pedido do Ir. Basílio Rueda, Superior Geral, Henri escreveu uma
autobiografia, datada do 1.° domingo do Advento de 1978. A seguir consta a
conclusão dela.
“HISTÓRIA DE AMOR”
Deus e a Virgem Maria sejam louvados por me terem chamado, por me terem
dado a graça da fidelidade muito simples, à qual procuro responder do melhor
modo possível. Obrigado aos meus Irmãos que me permitiram, pela sua própria
fidelidade, às vezes pela sua fraqueza, que eu respondesse melhor ao apelo de
Deus, incluindo alguns que deixaram o Instituto e continuam, para mim, muito
queridos. Mistério... Obrigado aos meus pais, à minha família, a tantos amigos,
sobretudo sacerdotes e religiosos, que me treinaram neste caminho do Amor.
História de Amor que continua: que o Deus fiel nos conserve fiéis. FIAT,
MAGNIFICAT.
Uns dez anos depois, Henri aceitou escrever o seu caminho espiritual “na
casa do Islão”. Termina assim:
Em resumo, foi meu compromisso
marista que me permitiu, apesar de minhas limitações, inserir-me
harmoniosamente em meio muçulmano; a minha vida neste meio, na sua vez, me
realizou mais profundamente, como cristão marista. Deus seja louvado! (Argel,
Natal de 1989).
Por ocasião do Centenário da chegada dos primeiros Irmãos Maristas à
Argélia, em março de 1891, Henri havia desfiado a Maria sua dezena argelina.
Seguem algumas passagens:
Este ano cumpre-se nova etapa: Bab-el-Oued, Casbah. Discretamente
perdidos no meio da multidão, eis-nos aqui, contigo, Maria, junto aos pobres,
junto aos jovens, como presença humilde, sempre querendo estar disponível em
prol da irradiação do teu Filho. E já temos encontros de visitação. Cante-se o
Magnificat.
Não falemos da biblioteca. Já acolhemos mil e tantos jovens. Cercam-nos
dezenas de milhares. Veja-se essa multidão ainda impregnada de fé, mas que
ainda duvida de seu futuro. É uma juventude muitas vezes desamparada do que se
apelida “terceiro mundo”. Mãe nossa, dai que logremos acender nesses jovens
corações a esperança.
O Ribat é um elo de paz. Esse grupo nos acolhe; todos desejam uma
aproximação mais espiritual do Islã e dos muçulmanos, na vivência cotidiana.
Maria, vós caminhais conosco, às vezes na exaltação dessas maravilhas que se
realizam na base, sinal profético, no espírito da fraternidade de Assis, ao
qual se abre a Igreja do vosso Filho.
Alguns apontamentos de Henri que traduzem a sua caminhada espiritual na
última etapa.
Velar sobre esse dom que Deus me faz na singeleza de um olhar de adesão
total, no mais fundo do meu ser, ao que ele quer a todo o momento, em toda a
circunstância: devo ser simples e verdadeiro no amor, na sua presença. Com a
Virgem Maria, eu me restauro e irradio a Eucaristia. (Tibhirine, 17-12-1983.)
Três critérios de apostolado para o Instituto: direcionamento aos mais
pobres, educação marial, apelos da Igreja. (3-4-1984.)
Devo fixar o meu coração em Deus com Maria.
Senhor Jesus, entrego-me a ti para ser oferecido em ti e contigo
totalmente ao Pai, no amor do Espírito Santo. Que a minha vontade seja a do Pai
sobre mim e que ela possa cumprir-se cada dia até o fim. (Varennes-sur-Allier, julho de 1985.)
A Virgem Maria constitui a mais bela expressão do amor divino. A Virgem
Maria é a mais bela resposta humana ao amor divino. Depois da encarnação tudo
nos vem por meio de Maria, já que ela nos deu Jesus. Agora ela o dá e o faz
crescer em cada uma das nossas almas, no seu papel insubstituível de Mãe.
Senhor Jesus, entrego-me a ti para ser entregue por inteiro, em ti e por
ti, ao Pai, no amor do Espírito Santo. A minha vontade seja aquela do Pai sobre
mim e que ela possa cumprir-se no suceder dos dias até o escopo final. (Escrito em julho de 1985, em
Varennes-sur-Allier).
A medida do nosso sofrimento constitui a medida da nossa ação nas almas.
Aos amigos, Jesus oferece a sua cruz. A cruz nos identifica com ele. Assim,
vive-se de tal modo nele e com ele, que as almas, entrando em contato conosco,
vão encontrar-se com Cristo (nota pessoal: aqui se vê que a alma do irmão marista já se encontra em
um caminho de grande perfeição e compreensão do que é ser, verdadeiramente,
discípulo de Cristo).
Jesus-Hóstia, centro da minha vida, prolonga a minha ação de graças em
toda a manhã e, na tarde, ele prepara a minha comunhão do dia seguinte. Cumpre
que faça de Jesus o meu amigo, o meu Irmão para a minha santidade de toda a minha
vida. Ele deve ser a minha respiração, a minha força. Assim, as almas de que me
encarreguei vão encontrá-lo mais segura e facilmente.
Deixar a paz de Cristo invadir-me sempre mais, no mais íntimo do meu
ser: devo ter paciência, bondade comigo, bondade com todos, em particular com
os jovens que o Senhor me confia. Virgem Maria, fazei-me instrumento de paz
para o mundo.” “Esforço particular, neste ano, para uma atenção mais especial
aos mais 'desfavorecidos' dos meus alunos. Desde o começo, procurar conhecer
cada um pelo seu nome. Adaptar melhor as minhas aulas, sobretudo aos mais
'carentes', como me pede Marcelino Champagnat. (Notre-Dame de l’Hermitage, julho de 1987.)
Oração
Ó Pai, o Irmão Henri Vergès deu a sua vida, no
seguimento de Jesus, na paciência do quotidiano, sempre disponível à vossa
vontade. No meio dos jovens, ele foi homem de fé e de bondade, servo dos mais
pobres e excluídos, testemunha autêntica do amor de Cristo. A seu exemplo,
fazei de nós homens e mulheres de diálogo com os nossos irmãos do Islã, na
discrição e no respeito.
Que a alegria pacificada e toda simples que
ele manifestava, fruto da sua simplicidade de vida e da sua proximidade a
Maria, habite em nós e atraia para o Vosso Reino muitos dos que pondes no nosso
caminho. Nós vo-lo pedimos por Jesus, Vosso Filho, Nosso Senhor e Nosso Irmão.
Amém.
Natal, 08 de maio de 2026.
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